Um jogo onde o Estado sempre vence

   Por Fernanda Garcia* em 03 | 02 | 2017

Uma mãe que perdeu seu filho. Um jovem que foi espancado enquanto voltava do trabalho. Uma menina que foi estuprada no caminho para casa. Um pai que viu seu filho ser assassinado na esquina de casa. A esposa que perdeu seu marido policial em confronto. O filho que viu seu pai se suicidar.

Todos os dias uma dessas violências são cometidas, e não pensem que elas acabam após o tiro acertado ou o tapa levado, a dor de carregar esse trauma se estende ao longo da vida, causando doenças ainda maiores e letais.

Dona Joselita era mãe de Betinho, assassinado pela polícia militar em Costa Barros enquanto voltava de uma comemoração do seu primeiro salário. Betinho e seus amigos tiveram o carro fuzilado por 111 tiros. Betinho morreu naquela noite, já dona Joselita morreu poucos meses depois. Causa: depressão.

A tristeza de dona Joselita não se resumia na perda de um filho - como se isso não fosse motivo suficiente. Seu estado psicossocial agravou-se após o descaso do Estado em relação a morte de seu filho, permitindo que os policiais envolvidos nessa chacina fossem absolvidos.

Dona Joselita buscou ajuda, foi três vezes ao Centro da cidade conversar com um psicólogo da Secretaria estadual de Assistência Social, porém desempregada e sem recursos para manter o tratamento, dona Joselita não pode dar continuidade.

Infelizmente dona Joselita foi mais uma vítima do Estado que tirou seu filho, não puniu os assassinos de seu filho, e não lhe deu recursos para se manter viva.

Recentemente o soldado Douglas de Jesus Vieira cometeu suicídio e transmitiu seu desespero ao vivo através das redes sociais, mesma rede que Douglas já havia usado para expressar sua indignação com o descaso do Estado para com a Polícia Militar, resultando no atraso de seu salários, péssimas condições de trabalho e enorme vulnerabilidade. Causa do suicídio: depressão.

Parece assustador trazer essas duas comparações, a mãe que morreu após perder seu filho assassinado pela polícia militar, e o soldado que perdeu a vida após se encontrar negligenciado pelo Estado.

Mas se pararmos para analisar, conseguiremos encontrar uma linha tênue entre os dois casos, o policial que dispara a arma contra o filho de dona Joselita poderia ser o mesmo policial que tem a arma do Estado apontada sobre sua cabeça.

Seríamos então todos vítimas de um Estado genocida? Apenas peças no tabuleiro de um sistema que nos distancia e nos coloca uns contra os outros fazendo com que nos matemos?



*Fernanda Garcia é estudante de Comunicação, militante feminista, favelada suburbana e estagiária de mobilizações no Meu Rio 

    





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